DINHEIRO EM JOGO

Com empresa de revenda de ingressos, Falcão começa carreira de empresário

Falcão é um atleta raro. Fora os desempenhos incontestáveis em quadra e como garoto-propaganda, ele não tem empresário e negocia pessoalmente todos os contratos que assina. Agora, a “dois ou três anos” da aposentadoria no futsal, vai usar a experiência em assuntos "extracampo" que ganhou por causa desta característica no início da carreira como empresário. O jogador virou sócio da Ultrafan, empresa brasileira especializada em revenda de ingressos, uma espécie de “cambista legal”. Em troca de uma participação na sociedade, vai divulgar o serviço e também participar das decisões. É a primeira vez que topa um negócio assim. “Já tive outras propostas parecidas, mas decidi não aceitá-las. Desta vez analisei o plano de negócios, as pessoas envolvidas, e me envolvi porque é algo que o mercado precisa”, diz Falcão ao blog. "O cambismo é uma das coisas erradas do esporte que o Brasil finge não ver". Hoje aos 37 anos, o nome de maior sucesso da história do futsal brasileiro se prepara para parar de jogar bola. Tem dois anos e meio de contrato com a Brasil Kirin, de Sorocaba, dos quais pretende cumprir. Enquanto isso, investe para não cair na rua sem saída que boa parte dos atletas de alto rendimento chega ao fim da carreira esportiva: como tiveram empresários para tomar decisões burocráticas todo o tempo, têm pouco preparo para novas profissões. Falcão, neste aspecto, crê estar preparado. “Aprendi tudo muito sozinho. Todos meus sete patrocínios fui eu que negociei. Sempre tive facilidade para discutir contratos, sabia até onde podia ir com minha imagem, pesquisava quantos tênis de futsal vendia, percentuais de vendas, sempre para chegar na mesa com argumentos. Aprendi, e isso vai fazer diferença agora”. Em breve, vai anunciar mais uma sociedade em outra empresa, em parceria com outro atleta. Mas isso, por enquanto, é segredo.

Qual o negócio
Você comprou um ingresso para assistir a Flamengo e Corinthians no Maracanã, mas, por um motivo qualquer, não poderá comparecer. Em vez de perder o ingresso, você o revende por meio de um site e recupera o valor gasto. Esta é a proposta da Ultrafan, cujo site está no ar desde a Copa do Mundo e que, agora, com a entrada de Falcão, espera deslanchar no Brasil. 
Este mercado é maduro fora do país. Nos Estados Unidos, a Stubhub surgiu já em 2000 e, em 2007, foi comprada pelo eBay por US$ 310 milhões. A revenda funciona para ingressos de NFL, NBA, MLS e NHL, no esporte, e eventos culturais, como shows e concertos. Renato Loes, brasileiro que trabalhou no mercado financeiro de Chicago por alguns anos, trouxe a ideia ao Brasil quando voltou. “Ninguém faz isso direito aqui”, diz o diretor comercial e sócio-fundador. O mote, assinado embaixo por Falcão, é o combate ao cambismo. Embora estimule pessoas a revender tíquetes que não serão utilizados, o serviço se baseia no Código do Consumidor e no Estatuto do Torcedor para limitar negociações. “A gente opera sem sobrepreço, mas permite repasse de custos”, afirma Loes. Explica-se: caso aquela entrada para Flamengo e Corinthians tenha custado R$ 60, mas você também tenha gastado R$ 15 em combustível para chegar até a bilheteria, mais R$ 10 de estacionamento, a Ultrafan permite revendê-la por um valor maior para que esses gastos sejam compensados. Isso, diz Loes, é legal e tira a necessidade de recorrer a cambistas.

O período da Copa serviu para testar sistema e demanda. “Poucas pessoas sabiam, mas fizemos dezenas de transações e tivemos retornos sensacionais. Teve uma menina que comprou Portugal e Gana, ficou na cara do gol e mandou foto para a gente”, conta o sócio. Não ter recebido nenhuma notificação da Fifa, num período em que a polícia e a entidade ficaram em cima de negociações paralelas de ingressos, é tido como uma vitória. O maior desafio é mostrar ao brasileiro que é seguro comprar tíquetes de terceiros em um site, mesmo desafio enfrentado anos atrás por sites como MercadoLivre e compras coletivas. Por isso existem alguns mecanismos de defesa: o valor da transação é devolvido pelo comprador caso o tíquete for falso, não for entregue em tempo ou se houver qualquer outro imprevisto, e há uma seguradora, a Capemisa, que dá seguro a quem vai ao espetáculo e sorteia prêmios.


Loes acredita que haverá ganhos até para quem vende entradas “em primeira mão”. “Quando um grande evento é anunciado nos Estados Unidos, ele esgota horas depois porque as pessoas sabem que, se não puderem ir, têm um mecanismo para desova. Quando o mercado secundário é eficiente, ele ajuda o primário a vender mais rápido”, argumenta. Brasileiros, na previsão dele e de Falcão, assim que se habituarem, vão deixar cambistas de porta de estádio para trás, e todos vão ganhar com isso

0 comentários:

Postar um comentário