FONTE - REVISTA ÉPOCA

Walter Casagrande: “Ele jamais ia mostrar o que a derrota de 1982 causou nele”

O ex-jogador e ídolo do futebol conta como funcionava a cabeça de seu amigo Sócrates, um dos maiores jogadores da história do país, vencido pelo alcoolismo

RODRIGO CAPELO
12/07/2016 - 08h00 - Atualizado 12/07/2016 21h01
Sócrates e Casagrande se reconciliaram em público, no programaArena SporTV, em 17 de outubro de 2011. Grandes amigos desde os tempos de jogadores no Corinthians, nos anos 1980, passaram anos sem se falar. Casão acabou com o hiato com uma declaração ao amigo. “Ele está dentro de mim. De dentro do coração, não sai.” Sem reação por um instante e sem o mesmo despudor em admitir o carinho, Magrão retribuiu com elogios. Mas não admitiu o alcoolismo que o pusera nos hospitais. O gênio politizado da bola, ídolo mundial e capitão da Seleção de 1982 morreu 50 dias depois. A história da dupla virou livro, Sócrates & Casagrande – Uma história de amor, o segundo da parceria entre Casão e o jornalista Gilvan Ribeiro. Nas 374 páginas, eles escrevem sobre a Democracia Corinthiana e a Tragédia do Sarriá, além de casos como o do filho que Sócrates supostamente teve com uma empregada doméstica e a paternidade que assumiu um dia antes de morrer.
Casagrande,ex-jogador e amigo de Sócrates (Foto: Victor Affaro/ÉPOCA)
ÉPOCA – O coautor do livro, Gilvan Ribeiro, escreve que seu primeiro livro, em 2013, serviu para você exorcizar os demônios da dependência química. E este é seu modo de passar a limpo sua história com o Sócrates. É por aí?
Walter Casagrande –
 Tive um estalo um dia para escrever o livro. Quando jogávamos juntos, nos anos 1980, ficou essa marca Sócrates e Casagrande. No dia em que ele morreu, cheguei ao Pacaembu para comentar um jogo e os repórteres vieram em cima de mim para falar sobre a morte dele. A primeira pergunta foi esta: como fica a dupla Sócrates e Casagrande? Eu estava chateado, mal, bem caído. Respondi, mas na minha cabeça pensei: só ele morreu. E agora? Agora, nada. O cara morreu, eu fiquei. Depois fui entender que a pergunta tinha sentido. Fiquei com isso na cabeça. Um dia estava chegando à Globo e me veio isso na cabeça, o livro inteirinho, do jeito que eu gostaria. Inclusive as últimas páginas, quando simulo um diálogo com ele.
ÉPOCA – O que o Sócrates escreveria sobre você?
Casagrande –
 Ele ia saber mais de mim do que eu sei dele. Sou mais aberto, emocional, muitas vezes falei para ele “eu te amo”, “sou teu melhor amigo”, e ele só respondia “beleza, beleza”. Nunca disse “eu também”. Ele não falou, mas eu sei que sim. Ele não gostava de demonstrar fragilidade. Acho uma loucura porque ele nunca quis demonstrar as fragilidades normais, que todo ser humano tem, mas demonstrava a maior, o alcoolismo. Estava na cara. Todo mundo sabia, mas achava legal, engraçado. “Que legal o Magrão bebendo cerveja.” “Olha o Casagrande chapado no show tal.” Achavam legal duas pessoas que estavam se destruindo.
ÉPOCA – No Arena SporTV, o Sócrates disse que não era alcoólatra. Você ficou desconfortável.
Casagrande – 
Fiquei. Quando entrei no Hospital Albert Einstein, em São Paulo, no quarto dele, ele comentou comigo: “Pensei que ia morrer desta vez, mas agora estou pronto para outra”. Isso me chocou mesmo. Fiquei ainda pior quando ele falou no Arena que não era viciado. Esse cara precisa do quê? O cara tinha acabado de ter quatro comas, hemorragia, sangue para todo lado, cenas horrorosas no hospital, e vai no programa de televisão dizer que não tem vício?
ÉPOCA – Como um médico chega a esse ponto?
Casagrande –
 É uma pergunta meio besta. Não é porque ele é médico... ele é normal como os outros.
ÉPOCA – Mas tem mais noção das consequências.
Casagrande –
 Isso, sim. Tem mais noção da causa. Mas admitir o vício numa coisa que você consome é muito difícil.
ÉPOCA – Ele nunca passou da fase da negação?
Casagrande –
 Nunca, meu. Nem chegou perto. Negou dias antes de morrer. E, além do trabalho psicológico [no caso de quem quer parar], você precisa de uns remedinhos para segurar a bronca. A abstinência não é fantasia.
ÉPOCA – Por que vocês se afastaram?
Casagrande –
 Fiquei incomodado quando ele falou que eu tinha me “vendido para o sistema”. Isso juntou com a bronca que eu tinha de ele não resolver nada. Eu estava na Globo, fazia na maior dificuldade, porque a droga atrapalha muito, mas eu realizava. Vou falar o que com um cara que não realiza nada? Eu ia conversar, e ele falava assim: “Pensei em escrever um livro, mas no quinto capítulo parei, porque comecei a fazer uma peça de teatro. Só que quando estava terminando o segundo ato, resolvi parar porque abri uma clínica de fisioterapia, né? Quando o cara estava quase recuperando o joelho, me chamaram para fazer um filme”. Ah, meu.
ÉPOCA – Ninguém o alertava?
Casagrande – 
Quem era próximo, mas estava distante, como eu, tinha noção do que acontecia. Quem saía com ele toda noite não percebia. Não digo que os caras foram maus. Não perceberam. Bebiam, mas não ficaram doentes. Ele ficou.
ÉPOCA – Quais eram os demônios do Sócrates?
Casagrande – 
Tenho certeza de que nos bares surgia o papo da Seleção de 1982, aquele jogo contra a Itália [uma das melhores Seleções da história do Brasil perdeu por 3 a 2 e foi eliminada da Copa, no jogo apelidado de Tragédia do Sarriá, nome do estádio em Barcelona onde ocorreu o jogo], a angústia, o sofrimento, e aí o álcool vai, meu irmão. Eu fazia isso com a droga. Eu exagerava nas emoções, acordava triste, melancólico, e cheirava para acabar com a melancolia. O álcool faz a mesma coisa. Mas ele jamais ia mostrar o que a derrota de 1982 causou nele.
ÉPOCA – Ele era festeiro o tempo todo?
Casagrande –
 Ele chegava ao Corinthians para treinar às 8 e ia para o bar às 11. Muitas vezes eu ficava com ele, a gente começava a tomar uma cerveja, e o negócio ia até as 4 horas da manhã. Todo mundo se apaixonava pelo Magrão porque você ficava horas com ele tomando cerveja, batendo papo, e o negócio não murchava, sabe? Não tinha vazio.
ÉPOCA – O que ele fez para entrar na linha em 1982?
Casagrande – 
Contaram o desejo de ganhar a Copa e o prazer de estar com aquele grupo. O Magrão era emoção. Se não fosse tão legal aquele grupo, se eles não se gostassem tanto, ele ia jogar, mas não ia fazer sacrifício. Ele tinha uma paixão muito grande pelo Zico, respeitava muito o Telê. Eu sei, porque a gente conversou. Na Democracia Corinthiana, ele também se apaixonou pelo projeto.
“Eu tinha noção do que acontecia. Quem saía com ele toda noite não percebia”
ÉPOCA – Num comício na campanha Diretas Já, o Sócrates, já vendido à Fiorentina, disse que ficaria no Corinthians se o Brasil voltasse a ter eleições diretas. Ele cumpriria?
Casagrande –
 A Fiorentina pagou, o Corinthians precisava. Saiu nos jornais. O Gilvan acha que ele bancaria a promessa. Eu acho que não. O Corinthians ia devolver o dinheiro? Ia ferrar a Fiorentina? Ele era louco, cara! Quem ferrou ele [no dia do comício] foi o [então locutor] Osmar Santos. O nosso papel lá era simples. Fomos de metrô, todo mundo de amarelinho, para dar uma pressão. Jogadores de futebol que apoiavam a emenda [Dante de Oliveira, que reinstituiria o voto direto para presidente]. O Fernando Henrique e o Lula estavam lá para falar, e o Osmar para alegrar. Nenhum jogador tinha de falar nada. Mas aí o Osmar vai lá e fala: “E aí, Doutor? O que você tem para falar ao povo?”. Aí o Magrão é louco. Fala o que vem à cabeça, e veio isso aí. Ele era emocional. E lutava pela democracia de verdade. Não era comédia. Ninguém ali era comédia.
ÉPOCA – Os momentos de responsabilidade dele vieram por causa de pessoas. Você se ressente do afastamento, de não ter estado com ele no momento do vício?
Casagrande –
 No primeiro momento, quando ele morreu, isso me incomodou. Passei anos muito legais com ele. Quando ele morreu, eu gostaria, se não tivesse jeito, que ficasse pelo menos mais uns dois meses. Um mês. Para a gente se aproximar, sair para jantar, conversar, sabe? Não ia ter de resolver nada, porque nada foi mal resolvido. O que ele fez e eu não gostei, ele sabe, eu sei. Faltou, talvez, não digo pedir desculpas, mas falar: “Eu me expressei mal aquele dia”. Deixa para lá.
ÉPOCA – Você tem alguma impressão de responsabilidade na morte dele?
Casagrande – 
Tinha, tinha. Isso daí eu ia pegar para mim. Ia comprar uma briga. Eu me tratei, estou bem, sei como faz. Talvez me tornasse um chato. Talvez me afastasse. Se ele continuasse bebendo, eu não ia ser cúmplice da evolução da morte do cara. De jeito nenhum. Não ia dar. Eu ia ser o chato. E, se ele não aceitasse, eu ia sair fora de novo. Eu não ia ser cúmplice da morte do cara.

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